A OpenAI lançou anúncios no ChatGPT no Reino Unido, México, Brasil, Japão e Coreia do Sul. É a primeira expansão simultânea para mercados com línguas, hábitos de compra e enquadramentos regulatórios muito diferentes — e um sinal de que a publicidade conversacional está a sair da fase puramente experimental.
A atualização foi publicada a 11 de agosto. Portugal não faz parte desta vaga, e a OpenAI não indicou uma data para a entrada no mercado português. Ainda assim, o movimento é relevante para equipas de marketing: o produto começa a criar uma camada paga precisamente no momento em que milhões de pessoas pesquisam opções, comparam alternativas e preparam decisões dentro de uma conversa.
O que foi lançado — e para quem
O teste começou nos Estados Unidos em fevereiro de 2026. A nova fase torna os anúncios ativos nos cinco mercados que a empresa tinha antecipado em maio. Segundo a OpenAI, a publicidade aparece apenas nas modalidades gratuitas Free e Go, para utilizadores adultos com sessão iniciada. Plus, Pro, Business, Enterprise e Education permanecem sem anúncios.
O formato é apresentado como patrocinado e separado visualmente da resposta. A empresa afirma que a posição paga não altera o conteúdo orgânico produzido pelo ChatGPT. Para quem não quiser anúncios, existe a possibilidade de mudar para um plano pago ou, na modalidade Free, abdicar de parte do limite diário de mensagens.
Como a seleção do anúncio funciona
Durante o teste, a OpenAI escolhe o anúncio a partir do tema da conversa, do histórico de chats e das interações anteriores com publicidade. Um utilizador a pesquisar receitas pode, por exemplo, receber uma proposta de entrega de refeições. A empresa diz que os anunciantes não recebem as conversas, memórias ou dados pessoais; veem informação agregada de desempenho, como impressões e cliques.
Também estão excluídos os utilizadores menores de 18 anos — identificados por declaração ou previsão do sistema — e os contextos classificados como sensíveis ou regulados, incluindo saúde, saúde mental e política. A OpenAI promete ainda controlos para dispensar anúncios, perceber por que razão foram mostrados, gerir a personalização e eliminar os dados publicitários.
Estas são regras declaradas pela própria empresa e continuam a depender da execução. A fronteira entre contexto útil e segmentação excessiva será testada em mercados com expectativas diferentes sobre privacidade, publicidade e utilização de dados.
Porque isto importa para as marcas
Os motores de pesquisa organizaram publicidade em torno de palavras-chave. Uma interface conversacional trabalha com intenção expressa em frases, contexto acumulado e comparação iterativa. Isso aproxima o anúncio do raciocínio que antecede uma compra, mas torna a correspondência mais difícil de prever.
- O briefing muda: a marca precisa de definir problemas, situações e critérios de decisão, não apenas listas de termos.
- A página de destino ganha peso: a promessa apresentada no anúncio deve continuar de forma clara, rápida e verificável após o clique.
- A medição precisa de contexto: cliques e conversões continuam importantes, mas será necessário separar descoberta, consideração e compra.
- A reputação fica mais exposta: um anúncio pouco relevante numa conversa de confiança pode prejudicar mais do que uma inserção convencional.
- Orgânico e pago exigem equipas coordenadas: o que o modelo diz sobre uma categoria não é comprado pelo anunciante, mas influencia o ambiente em que o anúncio aparece.
O que a evidência inicial já mostra
Um estudo académico publicado em agosto reuniu mais de três mil anúncios de 186 anunciantes durante a primeira fase do produto. Nesse retrato inicial, a maioria das campanhas estava orientada para bens de consumo e os anúncios conduziam frequentemente ao anunciante, não a um produto específico. Os investigadores observaram também uma separação visual clara entre publicidade e resposta.
É uma fotografia útil, mas limitada: recolhe a fase norte-americana, antes desta expansão, e o próprio formato continua a mudar. Não permite concluir como será o desempenho no Reino Unido, Brasil ou restantes mercados, muito menos antecipar resultados em Portugal.
A OpenAI afirmou em março que não tinha observado impacto nas métricas de confiança e que as taxas de dispensa eram baixas. Esses indicadores são internos e não foram apresentados com detalhe suficiente para uma avaliação independente. Devem ser lidos como sinal preliminar, não como validação definitiva.
Um plano prudente para empresas portuguesas
Mesmo sem disponibilidade em Portugal, as empresas podem preparar a arquitetura de medição e a disciplina de conteúdo. Para organizações que já vendem no Reino Unido, Brasil ou México, o teste pode começar com orçamento controlado e uma hipótese clara.
1. Escolher uma decisão, não um público genérico
Defina o momento em que a solução é relevante: comparar fornecedores, resolver uma falha, estimar um custo ou selecionar uma categoria. A intenção deve ser específica o suficiente para avaliar a pertinência da inserção.
2. Separar descoberta de conversão
Crie identificadores de campanha, eventos analíticos e páginas de destino próprias. Sem esta separação, o novo canal será misturado com tráfego direto ou pesquisa e ficará impossível distinguir curiosidade de procura qualificada.
3. Rever risco e linguagem
Valide alegações, preços, disponibilidade e limitações. Numa conversa, uma promessa vaga parece ainda mais deslocada. Setores regulados devem confirmar elegibilidade e regras antes de qualquer teste.
4. Comparar com uma referência
Use campanhas de pesquisa, social ou conteúdo orgânico como controlo. O objetivo não é provar que a publicidade conversacional funciona em abstrato, mas perceber se acrescenta procura incremental com qualidade aceitável.
O teste decisivo será a confiança
A publicidade pode financiar acesso gratuito e criar um novo canal de descoberta. Também introduz um incentivo comercial dentro de um produto que muitas pessoas tratam como assistente, investigador ou conselheiro. A promessa de independência da resposta será avaliada menos pelas intenções declaradas e mais pela consistência do produto ao longo do tempo.
Para as marcas, chegar cedo não compensa aparecer mal. O valor deste canal dependerá da relevância real, da transparência do formato, da qualidade da medição e da capacidade de respeitar o contexto em que uma pessoa está a pedir ajuda.
A expansão para cinco mercados não torna o ChatGPT numa alternativa madura à pesquisa paga. Torna-o num laboratório comercial que já merece acompanhamento — com curiosidade, mas sem confundir novidade com eficácia.
A imagem deste artigo é uma ilustração editorial gerada por IA. Não representa a interface real do ChatGPT nem um anúncio, produto ou campanha específicos.
Fontes
- OpenAI: Testing ads in ChatGPT — atualização de 11 de agosto de 2026
- OpenAI: New ways to buy ChatGPT ads
- OpenAI Help Center: Ads in ChatGPT — princípios, elegibilidade e medição
- arXiv: The Beginning of ChatGPT Ads — arquivo e análise da fase inicial
- Associated Press: contexto sobre o modelo publicitário e os riscos de confiança